Um ano depois, como está a aldeia do futuro? 

O jovem arquitecto moçambicano Adamo Miguel Murrombe concebeu o projecto “Benga, aldeia do futuro” e beneficiou da primeira bolsa de pesquisa da Academia Maputo Fast Forward, que tornou possível o aprofundamento da ideia e a consequente exposição no decorrer do MFF Festival, em Outubro de 2024. Um ano depois de ter se apresentado o projecto, procuramos compreender a repercussão de Benga, do imaginário do arquitecto para as diferentes possibilidades de interpretação das conclusões obtidas durante a pesquisa. Mas o que fomos descobrir em entrevista a Adamo Murrombe, é que é preciso construir outras narrativas para a valorização dos saberes e recursos locais face à globalização que tende a apagar as diferenças ou ao menos diluí-las. 

Foi o primeiro a beneficiar da bolsa de pesquisa da Academia MFF, como foi participar desse processo e o que antecedeu a tomada de decisão para candidatar-se?

– Eu já vinha desenvolvendo pesquisas de forma independente, então para mim, o conceito por trás da bolsa de pesquisa da Academia MFF parecia ser bom demais para ser verdade. Visto que foi a primeira vez da Academia e o meu primeiro contacto com o MFF em geral, foi com cepticismo que tudo começou. Juntando a isso, a burocracia calculista e morosa, só aumentou ainda mais o cepticismo. 

Mas a que se deveu esse cepticismo?

– O meu tema é um pouco contra-intuitivo, em uma altura onde se relaciona muito o futuro com as ideias globais, como automatização, big data, robótica, IA, estar a falar do conhecimento local (tradicional) como base para construir um futuro, é um pouco contra a maré. Contudo, para a minha surpresa, fiquei impressionado com os curadores e, em geral, com a equipa. Eles partilhavam algumas destas ideias com autoridade, aliada ao talento. Isso facilitou a interação e criou uma certa sinergia que acelerou e humanizou o processo de maneiras que nenhuma burocracia é capaz de prever ou esquematizar.

Pelo que a pesquisa correu muito bem, tive a liberdade de a desenvolver da maneira que eu esperava.

Essa é a parte que diz respeito à tomada de decisão de se candidatar e a própria interação com os curadores ou orientadores. E o que dizer sobre a etapa final, a apresentação dos resultados?

– Estava prevista uma apresentação em um formato mais acadêmico dentro do programa do Festival do MFF, que não foi possível por causa das manifestações pós- eleitorais, mas, por outro lado, fiz uma apresentação em forma de uma instalação de arte que foi muito bem recebida, com visitas guiadas para o público para que emergisse, com quadros, e os meus cadernos de campo. 

E que lembranças, passado um ano, lhe ocorrem sobre esses momentos de diálogos entre público e outros intervenientes?

– Foi um momento excelente e extremamente motivador, o carácter cosmopolítico do evento permitiu ter feedbacks distintos e de qualidade internacional (que só consigo comparar a outros eventos do mesmo carácter fora do País). Por exemplo, os professores Achille Mbembe e Rolando Vazquez fizeram críticas positivas e muito motivadoras. Outro grande feedback foi dos jovens que interagiram com a obra de forma massiva, alguns participaram em duas ou três rondas de visitas guiadas, o que revela uma sede nesta matéria. Foi muito motivador para dar continuidade aos meus trabalhos de forma independente.

Como explica o caminho usado para apresentar a Aldeia do Futuro e a forma como as pessoas interpretaram o projecto?

– Há apresentação em forma de obra de arte, foi muito importante, pois nem tudo na expressão visual, pode ser traduzido para a linguagem verbal, foi por isso que eu estive presente na exposição, para ver a reação dos visitantes (conversa na dimensão da estética visual). O engajamento e a interação do público com a obra, é um indicador, que revela que os valores por trás da estética local (tradicional), tem mais que relevância “acadêmica” ou simplesmente teórica, mas o potencial para ganhar formas com as quais o homem contemporâneo pode se identificar, e ser movido.

É com esta preocupação da aplicação na prática que o projecto evoluiu ramificando-se em duas direcções que estou a desenvolver de forma independente.

Neste espaço de um ano o que tem sido de si e do projecto? Ou seja, como pensa a “sobrevivência” da Aldeia do Futuro, de modo que não fique esquecida?

– A primeira direcção é a transformação do material de pesquisa em livro. Em segundo ponto nasce da seguinte questão, se a aldeia do futuro revela potencial para utilizar soluções locais, então: porque é que nós não utilizamos o saber local para resolver as nossas questões? Pelo que já estou a realizar uma pesquisa e vários ensaios dentro deste tema (um deles intitulado “como pode o nosso saber local, salvar Moçambique e o Mundo”, que eu gostaria de apresentar em universidades e criar debates).

Numa altura em que as crises se anunciam de toda a parte, o que nos impede a olhar para dentro, no seu entendimento?

Está questão, é fundamentalmente epistemológica, isto é, existe um certo cepticismo ao conhecimento local e paradoxalmente, este cepticismo vem do próprio nativo. Como pode ver esta segunda dimensão do meu trabalho é de carácter mais filosófico, mas é de um pensar na filosofia de forma prática, na base de análise de experiência e dados colhidos durante o processo de pesquisa, mas claro, cruzando com eventos históricos, outras pesquisas e outros pensadores. Fiquei impressionado quando o filósofo Severino Ngoenha fez um manifesto, ainda a pouco tempo, onde fala sobre esta questão epistemológica, como o saber local é ignorado pelo nosso sistema de ensino e também da importância de uma filosofia prática (práxis). Ele parecia estar a falar sobre o meu trabalho. E se Ngoenha também pensa assim, então isso quer dizer que alguma coisa no meu trabalho deve estar a andar na direcção certa.

Conheça o projecto Benga, aldeia do futuro aqui.

 

Artigo por

Elisa Chauque

Outubro 28, 2025

Artigos relacionados

Achille Mbembe laureado com o Prêmio Holberg de 2024

Achille Mbembe laureado com o Prémio Holberg de 2024

Curadora de filmes africanos recebe prémio da Academia Britânica de Cinema

Lenda Basquiat homenageado em diferentes partes mundo

Rui Trindade: o perfil de um homem à frente do seu tempo