À primeira vista, parece uma chuva de flores suspensas no ar. Centenas de pétalas coloridas ocupam o espaço, reflectem a luz nas paredes e convidam o olhar a perder-se entre cores e formas delicadas. Mas o que parece um jardim em plena floração esconde uma realidade menos poética: cada uma dessas flores nasceu de uma garrafa de plástico descartada.
É a partir desta transformação que a artista equatoriana Sue Bejarano constrói Dez Primaveras, instalação artística patente na Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo. A obra reúne 520 flores produzidas a partir de garrafas reutilizadas, numa proposta que cruza beleza, criatividade e consciência ambiental.
A ideia surgiu de uma constatação inquietante. Embora o plástico faça parte do nosso quotidiano, grande parte dele não desaparece. Pelo contrário, fragmenta-se em partículas cada vez menores que acabam por entrar nos alimentos, na água e no ar. “Estas belas flores sobreviverão a todos nós”, afirma Sue Bejarano. “Depois de muitos anos, irão decompor-se em partículas minúsculas que se misturarão com a nossa comida, a nossa água e até com o ar que respiramos.”

A artista explica que cada flor representa uma semana da vida humana. Juntas, as 520 flores simbolizam a quantidade de microplásticos que uma pessoa consome ao longo de dez anos. O jardim colorido transforma-se, assim, numa representação visual de algo que normalmente permanece invisível.
Ao reaproveitar um material associado ao desperdício e à poluição, Sue Bejarano cria uma instalação que encanta e inquieta em igual medida. Entre a leveza das flores e o peso da mensagem, Dez Primaveras desafia os visitantes a reflectirem sobre a relação entre consumo, ambiente e futuro, mostrando que até aquilo que descartamos pode ganhar uma nova vida.
