Uma equipa internacional de investigadores encontrou novos indícios de que o continente africano poderá estar a iniciar um processo de fragmentação numa região até agora pouco estudada. A descoberta resulta da análise de gases libertados por nascentes termais na Fenda de Kafue, na Zâmbia, que revelam uma assinatura química proveniente directamente do manto terrestre.
Os cientistas detectaram concentrações de hélio-3 primordial, um elemento raro que ascende das camadas mais profundas da Terra através de falhas geológicas. Esta evidência geoquímica reforça a hipótese de que a Fenda de Kafue representa um rifte continental em fase inicial e poderá, no futuro, evoluir para uma nova fronteira entre placas tectónicas.
A Fenda de Kafue integra uma vasta zona de rifte com cerca de 2.500 quilómetros de extensão, que atravessa a Tanzânia, a Zâmbia e a Namíbia, podendo prolongar-se até ao Oceano Atlântico. Embora a região apresente reduzida actividade sísmica e não possua vulcões activos, os geólogos já haviam identificado sinais de dinâmica tectónica, como anomalias gravíticas, temperaturas elevadas no subsolo e deformações da crosta terrestre.
Segundo Rūta Karolytė, da Universidade de Oxford, citada pelo New Scientist, é raro observar um sistema de rifte numa fase tão precoce da sua formação. Ao contrário do conhecido Vale do Rift da África Oriental — que se estende do Mar Vermelho até Moçambique e onde o processo decorre há dezenas de milhões de anos — a Fenda de Kafue poderá oferecer aos cientistas uma oportunidade única para acompanhar o nascimento de uma futura fronteira continental.
Para Patrice Rey, da Universidade de Sydney, as novas evidências geoquímicas tornam plausível que esta região venha, ao longo de milhões de anos, a transformar-se num novo limite entre placas tectónicas, redesenhando gradualmente a geografia do continente africano.
