A exposição “Olhares Críticos no Arquivo – Sombras e Memórias”, patente no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa (MUHNAC-ULisboa) até 31 de Agosto, propõe uma reflexão sobre o legado dos arquivos coloniais portugueses e o seu impacto na construção da memória dos povos africanos.
A mostra reúne obras inéditas dos artistas Ilídio Candja, Nuno Silas e Osias André (Moçambique), Jorgette Dumby (Angola), Márcio Carvalho e Raquel Lima (Portugal), desenvolvidas a partir de vários meses de investigação aos arquivos e colecções do antigo Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT). Os materiais resultam de missões científicas realizadas na Guiné-Bissau, em Angola e em Moçambique entre as décadas de 1930 e 1950.

Com curadoria de Márcio Carvalho, Nuno Silas e Sophie Kotanyi, a exposição convida o público a questionar os contextos em que estes objectos foram recolhidos e incorporados nas colecções museológicas. Em vez de uma leitura exclusivamente científica, o projecto propõe uma abordagem crítica que evidencia as relações entre conhecimento, poder e colonialismo.
Um dos núcleos centrais da exposição incide sobre as colecções de antropobiologia, que incluem medições e registos de corpos humanos frequentemente realizados sem o consentimento das populações. Segundo os curadores, estes materiais testemunham práticas que contribuíram para a legitimação de teorias raciais e para a desumanização dos povos colonizados.

Recorrendo a diferentes linguagens artísticas, “Olhares Críticos no Arquivo – Sombras e Memórias” procura transformar o museu num espaço de diálogo sobre memória, património e justiça histórica. A exposição desafia os visitantes a revisitar o passado colonial e a imaginar novas formas de reparação, valorizando perspectivas decoloniais e promovendo uma reflexão sobre o lugar dos patrimónios africanos nas instituições culturais contemporâneas.
Escrito por: Eduardo Quive