Por Eduardo Quive
Num contexto em que o acesso a redes internacionais continua a ser um dos principais desafios para artistas dos PALOP, os Estúdios Victor Córdon têm vindo a afirmar-se como um espaço fundamental de criação, intercâmbio e circulação, com particular impacto para criadores moçambicanos. O OPART – Organismo de Produção Artística é a entidade pública empresarial responsável pela gestão do Teatro Nacional de São Carlos, da Companhia Nacional de Bailado e dos Estúdios Victor Córdon, tendo como missão de serviço público actuar nas áreas da música, da ópera e do bailado.
Conversámos, em Lisboa, com o coreógrafo português Rui Lopes Graça, director dos EVC — plataforma criativa de apoio à comunidade artística independente e espaço de criação, experimentação e diálogo —, que explicou que os objectivos das iniciativas desenvolvidas pelos EVC resultam de uma preocupação com o contexto social e político contemporâneo.
Relativamente às iniciativas desenvolvidas com os PALOP, “a motivação original foi impulsionada por uma grande preocupação com o avanço da extrema-direita em Portugal. Já há vários anos que se começava a adivinhar um certo tipo de discurso. Por outro lado, sempre me criou muita estranheza o facto de a relação da língua portuguesa comum entre vários países não ser algo permanente e ser promovida muitas vezes a reboque de efemérides. Não se cria um lastro nem se desenvolvem mecanismos dentro das instituições que permitam uma relação permanente.”
Perante um contexto social que procura erguer fronteiras e barreiras, a resposta passou por colocar a cultura em acção como “uma forma de quebrar o discurso de ódio”, normalizando “a presença de comunidades migrantes dentro dos espaços institucionais.”
Os Estúdios Victor Córdon, explicou Rui Lopes Graça enquanto nos guiava pelos espaços onde se moldam talentos e profissionais da dança, propõem um modelo estruturado de integração que inclui residências artísticas acompanhadas por acções de mentoria; acesso à criação e circulação de espectáculos; e contacto directo com instituições culturais de referência, como teatros e fundações em Portugal e na Europa.
Esta lógica tem permitido a artistas moçambicanos desenvolver os seus projectos em diálogo com o contexto europeu, criando oportunidades concretas de circulação. Em parceria com instituições como o Camões – Centro Cultural Português, tem sido possível criar condições para que os artistas explorem melhor as suas potencialidades e estabeleçam ligação com importantes agentes culturais internacionais, projectando, assim, as suas carreiras.
“O objectivo é mesmo a circulação e a criação de redes. Se um artista conseguir uma encomenda de trabalho ou uma apresentação fora daqui, já valeu a pena.” Encontrar na língua a ignição para as relações entre Portugal e os PALOP faz com que se explorem ainda mais os potenciais do idioma, visando um desenvolvimento comum.
“Há uma concepção do mundo não dizível. Há uma forma de comunicação não dizível daquilo que está à nossa volta e da nossa forma de ver o mundo. Porém, isso também está muito ligado à matriz que construímos desde que nascemos. Ao nascer, a língua é uma coisa que nos molda. No caso de Moçambique, não é só uma língua. São várias. A nossa forma de pensar está intimamente ligada à construção da linguagem e da forma de expressão. Moçambique tem essa riqueza de, além da língua portuguesa, possuir outras línguas”, disse Rui Lopes Graça.
Conhecedor das realidades dos PALOP — e de Moçambique em particular, onde viveu até partir para Portugal aos 11 anos —, o coreógrafo reconhece os desafios da profissionalização na dança.
“Em Moçambique é muito difícil viver da arte, a não ser que já se tenha um percurso afirmado.” E aponta nomes hoje internacionalmente estabelecidos, como Edivaldo Ernesto, Edna Jaime, Horácio Macuácua, Ídio Chichava e Panaíbra Canda, entre outros.
Outros artistas que já trabalharam nos EVC incluem Amélia Socovinho, Carolina Manuel, Dinís Quilavei, Diogo Igor Amaral, Francisca Mirine, José Jalane, Leia Mabasso, Mai Juli Machado, Osvaldo Passirivo, Vasco Sitoe e Yuck Miranda, entre outros.
Ao criar condições de trabalho, visibilidade e ligação a redes internacionais, o espaço contribui para que os artistas possam consolidar as suas carreiras e afirmar as suas práticas para além dos seus contextos de origem.
Num cenário global em que as trocas culturais continuam, muitas vezes, a ser pontuais e dependentes de datas comemorativas, o projecto defende a continuidade como princípio.
“Tem de ser uma acção permanente”, concluiu Rui Lopes Graça.