Tassiana Tomé: “O futuro é também algo que podemos disputar, imaginar e construir colectivamente”

Socióloga e antropóloga, Tassiana Tomé é a curadora da Conferência Internacional do Maputo Fast Forward 2026, que este ano propõe uma reflexão sobre os impactos das tecnologias digitais e da inteligência artificial na sociedade contemporânea. Sob o tema “Realidades Artificiais: O Espelho Infinito”, a conferência cruza questões relacionadas com democracia, ambiente, economia, educação e criação artística, procurando colocar Moçambique e África no centro de uma discussão que é cada vez mais global.

Nesta entrevista, Tassiana Tomé explica as ideias que estão na base da conferência e fala sobre os diferentes “espelhos” através dos quais o festival pretende olhar para as transformações tecnológicas. Da relação entre inteligência artificial e democracia aos custos ambientais do mundo digital, passando pelo futuro do trabalho, pela criação artística e pelo lugar de África na construção das tecnologias do futuro, a curadora defende a necessidade de ampliar o debate e de questionar quem está a construir e a controlar os futuros que estas tecnologias tornam possíveis.

“Realidades Artificiais: O Espelho Infinito” é um título bastante provocador. O que é, afinal, essa realidade artificial que o festival quer colocar diante do público? E por que falar em “espelho”?

Quando falamos de “Realidades Artificiais”, falamos de um mundo em que as novas tecnologias, das plataformas digitais e dos algoritmos à inteligência artificial, estão a diluir progressivamente as fronteiras entre o real e o artificial, entre o vivido e o simulado, entre o orgânico e o sintético, tornando-as cada vez mais difíceis de distinguir. Habitamos um tempo em que estas tecnologias já têm capacidade de tomar decisões autónomas e independentes do ser humano. Deixaram de ser apenas ferramentas para se tornarem um ambiente de vida, participando, mediando e condicionando aquilo que vemos, pensamos, consumimos, a forma como interagimos e até como imaginamos o futuro.

É precisamente aqui que entra o espelho. O ambiente tecnológico no qual estamos inseridos reflecte também a sociedade que o produz. As tecnologias não existem num vazio: carregam valores, interesses, preconceitos, desigualdades e relações de poder. Podem, por isso, reproduzir e amplificar estruturas que já existem. É a partir desta ideia que a Conferência se organiza em diferentes “espelhos”, cada um revelando uma dimensão desta transformação. O Espelho Político olha para as implicações na democracia, na governação e no espaço público; o Espelho Ecológico interroga os custos materiais e ambientais do mundo digital; e o Espelho Criativo reflecte sobre as transformações na criação artística e cultural. Mas teremos também as Rodas de Saber onde se aprofundaram debates sobre o futuro de educação e do trabalho.

Realidades Artificiais: Espelho Infinito procura, colocar Moçambique e África dentro de reflexões globais, não apenas como espaços onde tecnologias desenvolvidas noutros contextos são aplicadas ou consumidas, mas como produtores de conhecimento, pensamento crítico e imaginação tecnológica.

A conferência cruza inteligência artificial, democracia, ambiente, economia e criação artística. O que une estas diferentes dimensões e qual é a pergunta central que atravessa todos os painéis?

O que une estas dimensões é a compreensão de que esta revolução tecnológica que está a alterar profundamente a forma como vivemos. Ela está a redistribuir poder e a redefinir o nosso lugar enquanto humanidade. A inteligência artificial está a transformar a democracia e a circulação da informação; está a alterar o mundo do trabalho e a economia; está a colocar novas questões à educação e à criação artística; e depende de uma infraestrutura material que tem custos ambientais muito concretos.

Por isso, embora os painéis olhem para áreas diferentes, existe uma pergunta transversal: quem está a construir e a controlar os futuros que estas tecnologias estão a tornar possíveis — e para quem? Que problemas do nosso contexto moçambicano e do continente africano estão a ser ampliados ou criados, mas também que problemas podemos resolver? Que lugar ocupamos na co-construção e imaginação do futuro tecnológico, entre possibilidades optimistas e implicações que poderão ser catastróficas.

Queremos aprofundar também, por exemplo, questões como quem controla a tecnologia que está a controlar cada vez mais partes da nossa vida? Quando um algoritmo toma uma decisão sobre nós, quem é responsável por essa decisão? A inteligência artificial está a democratizar o conhecimento ou atrofiar as nossas capacidades cognitivas? O que acontece já não conseguimos ter a certeza de que aquilo que vemos ou ouvimos é verdadeiro? O que acontece à democracia quando ferramentas tecnológicas tem o poder de capturar processos eleitorais? E quando um pequeno grupo de corporações  gigantes de tecnologia, as “Big Techs” detém um monopólio de poder e todos os nossos dados?

Há uma preocupação evidente em colocar África no centro da discussão sobre o futuro tecnológico. O que significa, concretamente, pensar a inteligência artificial e a transformação digital a partir de África, e não apenas aplicar ao continente debates produzidos noutras geografias?

Significa, antes de mais, recusar a ideia de que África é apenas um lugar onde as tecnologias são consumidas, testadas ou aplicadas ou onde os dados são extraídos.  Hoje, sistemas globais de IA aprendem com conjuntos de dados que mal representam a experiência africana, mas seus resultados moldam as economias, a educação e a governança africanas. O que acontece quando a inteligência que define o futuro é treinada para ignorar sua história, seus sotaques, seu gênio

O continente tem experiências, problemas, conhecimentos e formas próprias de imaginar o futuro que precisam de participar na definição dessas tecnologias, e na sua regulação. O continente já possui por exemplo uma Estratégia para Inteligência Artificial produzida em 2024 pela União Africana, mas o nosso lugar nas grandes discussões globais continua marginal. Uma das oradoras convidades, a Wakanyi Hoffman, que trabalha com inclusão. Isto implica perguntar, por exemplo, o que acontece às nossas línguas, aos nossos sistemas de conhecimento, às nossas formas de produzir e transmitir saber, às nossas economias e aos nossos territórios quando adoptamos sistemas concebidos noutros contextos. Contudo, é preciso sem dúvida reconhecer as relações de poder assimétricas existentes, o controlo das infraestruturas e dos principais fluxos de valor permanece concentrado no Norte Global, e verdadeiramente num pequeno número de corporações “Tech”.

Por isso, pensar a partir de África não é apenas “incluir uma voz africana” numa conversa global. É permitir que experiências e epistemologias africanas possam também questionar os pressupostos dessa conversa e ajudar a imaginar outros futuros. A queniana Wakanyi Hoffman, uma das oradoras do Festival, por exemplo, nos convida a pensar a importância de regular a IA, e de integrar princípios da filosofia e ética do Ubuntu no desenvolvimento de IA.

A escolha dos convidados reúne filósofos, cientistas políticos, activistas, economistas, artistas, investigadores e jornalistas. O que procurou provocar com essa diversidade de perspectivas? Há algum confronto de ideias que considera particularmente importante para esta conferência?

Sim a Conferência, através dos seus diferentes “Painéis – Espelhos”, aborda as diferentes dimensões desta revolução digital-computacional que afecta todas as áreas da nossa vida colectiva e individual, e por isso há uma necessidade de trazer uma pluralidade de disciplinas e práticas, a partir das quais podemos interrogar de forma mais abrangente o que está a acontecer.

Um filósofo pode ajudar-nos a pensar o que significa ser humano num mundo em que o orgânico e o sintético se fundem; um cientista político pode interrogar os efeitos sobre a democracia; um economista pode olhar para as transformações no mercado de trabalho, um empreendedor pode compartilhar inovações sistémicas; um artista pode mostrar-nos aquilo que os conceitos, por vezes, não conseguem dizer; enfim.

Achamos particularmente importante colocar em diálogo perspectivas diferentes que reconhecem o potencial transformador da tecnologia com aquelas que nos obrigam a olhar para os seus custos, exclusões e riscos. A conferência não pretende oferecer uma narrativa única sobre a tecnologia. Queremos criar condições para que diferentes futuros possam ser imaginados.

No Painel 1 fala-se dos limites e possibilidades da democracia num espaço digital marcado por algoritmos, manipulação da informação e vigilância. Até que ponto as tecnologias que deveriam ampliar a participação podem, pelo contrário, aprofundar desigualdades e formas de controlo?

A tecnologia pode ampliar enormemente a participação: permite criar redes, organizar movimentos, dar visibilidade a vozes que antes tinham pouco acesso ao espaço público e criar novas formas de mobilização e activismo político.

Mas essas mesmas infraestruturas podem ser usadas para vigiar, manipular, classificar e controlar, determinar massivamente resultados eleitorais. A desinformação, os bots e os deepfakes tornam ainda mais difícil estabelecer um espaço comum de confiança.  E os impactos não são iguais para todos. Mulheres e pessoas LGBTQIA+, por exemplo, podem estar particularmente expostas a formas de assédio, discursos de ódio e violência digital.

Por isso, a questão não é simplesmente se a tecnologia é boa ou má para a democracia. A questão é: quem controla essas infraestruturas, com que regras e com que consequências? E como podemos garantir que o espaço digital continua a ser um espaço de participação e não apenas um espaço de controlo?

O Painel 2 introduz uma dimensão que muitas vezes fica escondida quando falamos de inteligência artificial: os seus custos materiais e ambientais. Por que era importante trazer a questão ecológica para uma conferência sobre futuros digitais?

Porque o digital não é imaterial. Quando falamos de inteligência artificial por exemplo, tendemos a imaginar algoritmos, nuvens e ecrãs, mas por detrás disso existem enormes infraestruturas, consumo energético, centros de dados, minerais, água e resíduos electrónicos. E esta dimensão é particularmente importante para África. O continente possui uma parte significativa dos minerais críticos necessários à economia digital e à inteligência artificial, o que coloca questões sobre extracção, soberania, justiça ambiental e distribuição de valor. Portanto, não podemos falar de um futuro digital sem perguntar que planeta sustenta esse futuro e quem paga o seu custo.

Mas o painel não pretende apenas denunciar impactos. Também queremos discutir como as tecnologias podem contribuir para respostas à crise climática, para a gestão de recursos e para a conservação. A questão é como construir futuros digitais que continuem a ser habitáveis.

No Espelho Criativo, a discussão chega directamente aos artistas: inteligência artificial, sistemas generativos e algoritmos estão a alterar a própria ideia de autoria e criação. O que está realmente em jogo para os artistas e para as culturas africanas neste processo?

Está em jogo muito mais do que a possibilidade de uma máquina produzir uma imagem, uma música ou um texto. Estamos a discutir quem é o autor, o que significa criar, o que é originalidade e quem tem direito ao valor produzido por uma obra. Se uma inteligência artificial é treinada com milhares de obras de artistas, por exemplo, precisamos de discutir os direitos, o reconhecimento e a remuneração desses criadores.

Mas existe também uma questão cultural particularmente importante para África: quem controla a representação das nossas histórias, identidades e conhecimentos quando sistemas algorítmicos passam a participar na sua produção?

As tecnologias podem abrir possibilidades extraordinárias para artistas africanos experimentarem novas linguagens, trabalharem com realidade estendida e alcançarem novos públicos. Mas também podem reproduzir apropriações e apagamentos de conhecimentos e estéticas que já têm uma longa história.

Por isso, queremos pensar a tecnologia não apenas como uma ameaça à criação, mas também explorar como o território digital vem sendo ocupado e transformado por artistas e produtores culturais.

Depois de quatro painéis e das Rodas de Saberes, o que gostariam que o público levasse consigo? A conferência pretende apenas criar espaço para reflexão ou espera contribuir para mudanças concretas na forma como pensamos, usamos e participamos na construção dos futuros tecnológicos?

Espero que as pessoas levem mais perguntas, mas também mais agência. Realidades Artificias:  Espelho Infinito: quando olhamos para os espelhos que este ambiente tecnológico está a reflectir para nós através das suas telas, estamos também a olhar para nós próprios: para as nossas desigualdades, os nossos desejos, os nossos medos, os nossos valores e para aquilo que imaginamos ser possível.

Se alguém sair do MFF com vontade de continuar a conversa, de fazer uma pergunta que nunca tinha feito, de criar uma colaboração ou simplesmente de olhar para o seu próprio quotidiano e como usa as ferramentas tecnológicas, de aprender sobre as inovações e soluções que estão a ser criadas em Moçambique, então acho que o Festival terá conseguido cumprir a sua proposta.  E, sobretudo, gostaria que levassem a ideia esperançosa de que o futuro não é apenas algo que vai acontecer connosco. É também algo que podemos disputar, imaginar e construir colectivamente.

Artigo por

Elisa Chauque

Setembro 22, 2026

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