A cidade que cresce e os mangais que resistem

Por Denise Nicolau

Uma cidade que conheço, que amo, que respiro. O lar que me viu crescer: a minha cultura, a arte, a gastronomia, a natureza e a vida que pulsa em cada rua, praça e marginal. Ahhh, tão minha.

Entre memórias e desafios, Maputo convida-nos a uma reflexão profunda sobre o caminho que queremos seguir. Um caminho em que o desenvolvimento económico, a preservação da biodiversidade e o bem-estar dos cidadãos coexistem diariamente, nem sempre de forma equilibrada. A cidade cresce, os prédios sobem, as avenidas alargam-se, mas os mangais, que já sustentaram gerações, continuam a resistir, silenciosos, testemunhas verdes da história urbana.

Os mangais de Maputo não são apenas ornamentos de uma paisagem deslumbrante, vista do ar, como mostra esta fotografia. São guardiões da vida costeira, protectores da cidade contra tempestades e contra a erosão severa. Filtram a água, sustentam a pesca artesanal e asseguram a biodiversidade que mantém a cidade viva. Cada raiz que se fixa na lama, cada folha que dança ao vento, é uma promessa de vida. E, no entanto, o avanço urbano olha para a costa como um território de oportunidades económicas imediatas — hotéis, apartamentos de luxo e empreendimentos turísticos — esquecendo, muitas vezes, o valor real que estes ecossistemas oferecem à minha tão querida cidade.

Caminhar ou sobrevoar a Baía é perceber o contraste: de um lado, o cimento a disputar espaço, máquinas a construir o futuro; do outro, raízes entrelaçadas, aves que pousam nos galhos e crianças que brincam, aprendendo, mesmo sem o saber, que respeitar a natureza é respeitar a própria vida. A cidade, que cresce rapidamente, parece ainda esquecer que o desenvolvimento económico sem equilíbrio ecológico é frágil. Cresce em indicadores financeiros, mas a qualidade de vida de muitos dos seus habitantes não acompanha esse ritmo.

Os habitantes de Maputo sabem disso. Entre a correria diária, continuam a lutar para manter viva a natureza — aquela que vai muito além da beleza de um jardim ou de uma praça de acácias floridas. A natureza que sustenta o clima local, que ajuda a regular o clima global, que garante alimento na mesa dos maputenses e que nos lembra, todos os dias, que o progresso não pode ser medido apenas em números ou investimentos imobiliários. É uma batalha silenciosa, feita de pequenas acções: plantar árvores, recuperar mangais, limpar praias, educar crianças e jovens sobre o valor dos ecossistemas costeiros e marinhos.

Fotografar os mangais da Baía é capturar esta tensão. O verde intenso que contrasta com o azul do céu e insiste em sobreviver entre edifícios, portos e infra-estruturas; o reflexo das raízes na água salgada; as mãos cansadas que tentam proteger o que resta. Cada imagem é um alerta, um convite à reflexão: a cidade que queremos depende das escolhas que fazemos hoje. O desenvolvimento costeiro precisa de reconhecer os mangais não como obstáculos, mas como aliados vitais na construção de uma Maputo resiliente, justa e inclusiva.

Ao longo da cidade, observo também pequenos laboratórios de inovação: colectivos que promovem hortas urbanas, compostagem, reciclagem, campanhas de limpeza de praias e iniciativas culturais que merecem ser ampliadas e replicadas. É neste espaço entre criatividade, resistência e crítica que se constrói uma narrativa de futuro. Maputo pode crescer sem sacrificar a sua natureza, sem abandonar os cidadãos mais vulneráveis e sem perder a identidade que a torna única.

Mas a reflexão é inevitável. Por trás do progresso aparente, persistem desigualdades. Há bairros onde ruas sem saneamento convivem com avenidas pavimentadas; escolas com escassos recursos ao lado de edifícios sofisticados; crianças que estudam em condições precárias enquanto a cidade planeia empreendimentos milionários à beira-mar. O desenvolvimento económico é urgente, mas não pode ser cego. Deve respeitar o equilíbrio que sustenta a vida urbana e a natureza que a torna possível.

Enquanto o sol se põe sobre a Baía, iluminando simultaneamente o cimento e o verde, sinto que Maputo ainda tem dias felizes pela frente. Mas esses dias só serão possíveis se aprendermos a ouvir os mangais, essa força da natureza que parece ter crescido comigo. O desenvolvimento só será verdadeiramente desenvolvimento se for feito com consciência, cuidado e justiça.

Viva a bela Cidade de Maputo! Com mais de 138 anos de história, que não lhe falte inspiração para continuar a construir uma cidade que honra o seu passado, protege os seus mangais, respeita os seus cidadãos e olha para o futuro com coragem e sabedoria.

Artigo por

Elisa Chauque

Junho 15, 2026

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