O bidão ou galão de combustível?!

Na manhã em que decidi procurar combustível, Machava já parecia um cemitério de motores. Não era exactamente silêncio. Era pior. Havia buzinas histéricas, chapas tossindo fumaça preta, passageiros espremidos como roupa molhada, vendedores de badjias gritando no meio das bixas, motorizadas invadindo passeios, e homens carregando recipientes vazios como peregrinos modernos atrás de um milagre líquido.

O meu bidão azul de vinte litros tornou-se o objecto mais importante da minha vida. Mais importante que o salário. Mais importante que o cartão do banco. Mais importante até que esperança. Foi nessa bixa infernal que conheci Jamal.

Veio de Nampula há seis anos, mas falava como se ainda estivesse sentado no chão duma khangala em Namicopo. Magro, sempre sorridente, dono daquela alegria barulhenta típica de quem aprendeu cedo que a vida só não enlouquece completamente porque o povo ri.

Carregava três recipientes amarelos amarrados com corda. Quando chegou perto da fila perguntou em voz alta:

— Chefes… aqui estão venteri gasolina ou estão distribuir sofrimento?

Alguns riram. Outros nem tinham energia para isso. Jamal levantou um dos recipientes e perguntou:

— É quem o último pessoa com galão manos?

Um homem virou-se imediatamente:

— Não é galão, você também. Aqui em Maputo chamamos bidão.

Jamal fez cara séria.

— Bidão é o quê mano? Nome de cantori?

A bixa explodiu em gargalhadas. Desde aquele dia, metade da bomba passou a discutir linguística de combustível. No Sul diziam “bidão”. Jamal insistia em “galão”.

— Lá na terra isso é galão.

— Aqui não é Nampula.

— Combustível também não é daqui e todos procuram.

Silêncio. O homem ficou sem resposta. Porque o humor às vezes humilha mais que discussão. Com o passar dos dias, Jamal tornou-se famoso nas bixas. Andava de bomba em bomba oferecendo biscates aos jovens desempregados.

— Você tens pernas forte?

Perguntava.

— Tenho.

— Então pega tois galões e vai procurari gasolina na Matôla.

Assim nasceu uma nova profissão nacional: Caçador de combustível. Jovens saíam pela cidade inteira carregando bidões ou galões vazios. Alguns caminhavam quilómetros. Outros dormiam em filas. Outros decoravam horários secretos de abastecimento como estudantes preparando exames finais. E outros lá se acampavam…

Maputo transformara-se numa caça ao tesouro. Só que o tesouro cheirava a gasolina ou diesel. E pagava-se por litro.

Os desempregados descobriram negócio na crise. Havia quem cobrasse para guardar lugar na fila. Outros alugavam recipientes. Alguns empurravam carros mortos, sem combustível. Outros vendiam informações:

— Dizem que chegou camião na Julius Nyerere.

— Dizem que ali só estão a abastecer conhecidos.

— Dizem que combustível foi desviado para o Zimbabwe.

Em Moçambique, quando falta transparência, nasce imediatamente um mercado paralelo da imaginação. Jamal adorava comentar tudo.

— Este País é muito engraçato mano… temos muito fofocas que combustível.

Na rádio, Ministros apareciam com vozes tranquilas:

— O País possui combustível suficiente nos reservatórios.

A fila inteira ouvia aquilo como quem escuta piadas de humor negro. Porque diante das bombas, a realidade era outra. Chapeiros dormiam dentro dos transportes para não perder lugar na bixa. Trabalhadores caminhavam quilómetros por falta de chapa. Passageiros discutiam por espaço como refugiados urbanos. Ambulâncias, Bombeiros, Polícias ficavam presos no trânsito. Crianças chegavam atrasadas às escolas. Pacientes chegavam tarde aos hospitais. Mas o Governo insistia:

— Há combustível suficiente.

Jamal abanava a cabeça:

— Então combustível dêli foi ir trabalhar sozinho, porque nas bombas não aparece.

Toda cidade começou a parecer uma fotografia engarrafada. Carros estacionados em passeios. Viaturas abandonadas nas entradas das casas. Motorizadas atravessadas nas avenidas.

— Huummm… Outro dia vimos carro parado na porta de funerária de cemitério…

Jamal comentou imediatamente:

— Até os irmão que morreu precisa esperar abastecimento antes de morrer.

A fila quase caiu de tanto rir. O humor Moçambicano é perigoso. Quanto mais o povo ri, mais próximo está do colapso. Ao meio dia, a bixa ultrapassava sete carros. SETE. Enquanto isso, homens discretos abasteciam sem limitações. Viaturas luxuosas apareciam, furavam as bixas invisíveis e desapareciam de depósitos cheios. Talvez coincidência.

Em Moçambique, coincidência é apenas corrupção usando perfume caro. Naquele dia, depois de nove horas de espera, finalmente chegou a minha vez. O funcionário da bomba olhou para o meu recipiente.

— Quantos litros?

Antes que eu respondesse, Jamal interrompeu:

— Mano, mete vinte no meu galão mano. Um pouco só.

O funcionário irritou-se:

— Amigo, isso é bidão!

Jamal cruzou os braços dramaticamente.

— Irmão… combustível não tem completo no País todo e ainta você quer mutari nome do meu sofrimento?

Até o funcionário riu. Mas depois suspirou:

— Só podemos dar dez litros.

DEZ. Observei a gasolina entrando lentamente no meu recipiente azul, como soro num paciente terminal. Ao lado, um homem numa viatura luxuosa abastecia sem limites enquanto falava ao telefone sobre “negócios”. Jamal aproximou-se devagar e sussurrou:

— Moçambique mano, tem tuas bixa. A nossa… e a outro bixa de bantido preguiçoso-perigoso.

Peguei o meu bidão. Ou galão. Naquele momento já não importava o nome. Importava apenas sobreviver. Enquanto voltávamos para casa no meio do trânsito imóvel, vimos jovens correndo de bomba em bomba atrás de biscates, carregando recipientes vazios nas costas como soldados de uma guerra absurda. E talvez fossem mesmo. Porque naquele Moçambique surreal, o combustível deixara de ser apenas combustível. Tornara-se moeda. Poder, privilégio. E sobretudo esperança. Foi então que percebi: A verdadeira crise não era apenas a falta de gasolina ou diesel. Era um País inteiro empurrando carros, chapas e sonhos… enquanto poucos seguem viagem com o depósito cheio e o povo distraído discutindo se aquilo se chama bidão ou galão…

Oro Wa Ka Munguambe

Maio, 2026

Maputo

Artigo por

Elisa Chauque

Junho 1, 2026

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