Auto-retrato de um camelo programado

É quase meia-noite. O cansaço coloniza-me o corpo. Doem-me as costas. O pescoço, acorrentado por uma dor aguda e constante, reclama do uso excessivo ao qual, em nome do salário, o submeti durante o dia – limita-me os movimentos; está em greve. Os joelhos rangem como gonzos enferrujados. Para assentar no estômago a matapa e o arroz que acabei de ingerir, bebo um copo de água morna. Apesar da visível lassidão, um sorriso escapa-me pelos lábios, jantei com um dos meus pratos preferidos. Mesmo quando o stock mensal está quase minguado, a queen sempre arranja maneiras de caprichar na cozinha. Quanto a isso, nada tenho a reclamar.

Saio da sala. Atravesso a porta do quarto. É momento de descanso. Daqui a pouco, o alarme soará. Enquanto meto a marmita na geleira, concluo: em nome do salário, tudo está invertido, vivo no serviço, à casa só venho fazer turismo. Trabalho de Domingo a Domingo, sem direito a férias nem folga. A rotina não muda, fica mais pesada a cada dia. Sou um camelo perdido nas terras áridas; um camelo em contínua marcha, em busca de um inexistente oásis. Sacrifico-me diariamente em nome do salário. Que farei? O trabalho dignifica o homem. Eis uma das inesquecíveis lições que aprendi do meu pai. Granda mentiroso o velho. Hoje percebo o contrário: o trabalho danifica o homem. Estou a mentir? Olha só para as minhas costas cimentadas de dor e o pescoço inchado.

Neste mundo puramente capitalista, tudo acontece em função do nível da fluência de cada um na linguagem monetária. Por exemplo, tive que subornar o chefe de RH para renovar o meu contrato por mais um ano na empresa em que trabalho. Está tudo lixado! Daqui a um século compraremos oxigénio a crédito, já disse o rapper Fusível, e é evidente.

Infiltro-me nas mantas. É Junho. O frio impera em todos os cantos de Maputo. Abraço a madame. Chamo o seu nome, duas vezes consecutivas, mas ela não responde; está perdida num sono demasiado profundo. Não se move. O único sinal de que ainda vive são os ligeiros roncos que as suas fossas nasais emitem. Retiro a minha mão do corpo dela. Não a tenciono acordar. Do jeito que está perdida no sono deve estar a sonhar com um Júnior ao colo. Há anos que temos tentado trazer um bebé ao mundo. Na semana passada, fomos à consulta para o especialista analisar a nossa fertilidade. Contudo, os exames pelos quais devemos passar custam uma fortuna. Eis mais uma justificativa para eu me redobrar lá na empresa para garantir o mísero salarium. Deve ser doloroso para a minha esposa, assim que está de férias na faculdade, passar todos os dias sozinha. Também, já estou cansado da pressão dos meus tios a perguntarem, sempre que nos juntamos em convívios familiares, quando virá um Júnior? Quando virá um Júnior? Quando virá um Júnior? Até parece que quando o Júnior chegar nos ajudarão com alguma percentagem dos seus salários.

Deito-me de costas, olhos postos nas ondas da cobertura. A minha esposa continua a ressonar. Lembro-me da breve conversa que tivemos, ao meio-dia, quando eu almoçava lá no trabalho:

“Amor, como vai o trabalho?”, ela perguntou.

“A mesma merda de sempre! Mas, em nome do salário, vou suportando estes chineses.”

“Muita força aí, amor”, disse ela. No fundo, ouviam-se gritos vindos da TV, a voz do jornalista a narrar os factos: […] os funcionários desta empresa de segurança dizem que há quatro meses que não recebem sequer um centavo dos seus ordenados […] E, chegados a este ponto, tive que interromper a chamada, porque o gestor do armazém entrou na copa com uma nova ordem:

“Chegali caminhão do melcadolia… descalegali agola vocês, lápido-lápido!”

E, em nome do salário, fomos nós, camelos em jugo neste modernizado xibalo[1], descarregar a pesada mercadoria do camião. Foi neste exercício que machuquei o pescoço e o cansaço apossou-se do meu corpo.

Contínuo com os olhos postos na cobertura, conto as ondas. São cinco em cada chapa. Cinquenta ondas em toda a cobertura do quarto. O meu pai dizia com frequência que contar as ondas das chapas invoca mais rápido o sono. Portanto, aos poucos, vou adormecendo, a saber que, em menos de cinco horas, o alarme soará e será mais um dia para ouvir o chinês a responder mal aos clientes insatisfeitos com os produtos: nom galantia aqui, nom galantia. E a ralhar para nós os funcionários, aliás, seus incansáveis e programados camelos: vocês nom gostal tlabajal… gostal dinheiro só. Mas vocês sabe, quem nom tlabajal, nom panhal salálio fim do mês. Nom panhal nada!

Num ápice, fecho os olhos, e tudo é escuridão.

 

Biografia do autor

FERNANDO ABSALÃO CHAÚQUE nasceu Maputo, em 1996. Licenciado em Ensino de Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica de Maputo, é professor de profissão; autor dos livros “Âncora no Ventre do Tempo” (2021), Prémio Literário Alcance Editores, edição de 2019; “Quando desabam os céus” (Massinha e edições, 2025); e co-autor das seguintes obras: “Barca Oblonga” (editora Fundza, 2022), “Mazamera Sefreu” (editora Kulera, 2023) e “Atravessar a pele” (Oitenta Noventa, 2023). Fez parte dos livros “Os olhos Deslumbrados” (FFLC, 2021); “Um natal experimental e outros contos” (Gala-gala edições, 2021).

Artigo por

Elisa Chauque

Maio 5, 2026

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